A dispersão do processo produtivo, ou ainda o encadeamento das etapas de produção, é uma característica cada vez mais presente das atividades empresariais.

Embora seja corrente entre os analistas de mercado a ideia de que o país precisa se inserir de uma maneira mais assertiva nas Cadeias Globais de Valor, a realidade da indústria brasileira já apresenta as mais variadas relações no que tange à produção.

Os setores público e privado, sendo este último composto por grandes empresas, além das pequenas e médias (PMEs), estabelecem relações com base na redução de custos e aumento da competitividade.

Nesse sentindo, a dispersão do processo produtivo torna necessário o surgimento de conectores de serviços entre as etapas de produção, ou mesmo agentes de mercado que estabeleçam conexões entre os diferentes setores ou empresas.

Dessa forma, ao mesmo tempo em que a dispersão da produção almeja vantagens comerciais, a complexidade do processo pode resultar em vazamentos e desperdícios de recursos, tanto via corrupção dos agentes, como pela má gestão.

Mecanismos Públicos e Privados Para o Combate à Corrupção nas Cadeias Globais de Valor

Os stakeholders de uma Cadeia Global de Valor podem recorrer a mecanismos públicos e/ou privados para combater tanto a corrupção dos agentes, quanto o desperdício de recursos. A análise destes mecanismos revela, no entanto, uma discrepância entre as soluções públicas, que focam em modelos éticos, e as privadas, que focam na melhoria da gestão.

Além disso, deve-se ressaltar a dificuldade em engajar as pequenas e médias empresas na adoção de práticas de gestão ou programas de integridade.

Em recente evento sobre combate a corrupção da Rede Brasil do Pacto Global da ONU, em mesa temática sobre as Cadeias Globais de Valor, pude perceber como ainda existe uma lógica pouco propícia a um engajamento satisfatório das pequenas e médias empresas brasileiras no desenvolvimento de práticas de gestão, que resulte, conjuntamente, em combate à corrupção e reduções de recursos desperdiçados ao longo do processo produtivo.

Combate-a-corrupção-cadeias-globais-de-valor Pequenas e Médias Empresas nas Cadeias Globais de Valor: a Importância do Engajamento Ético ao Aumento da Competitividade Negocial

Nesse aspecto, dois pontos podem ser problematizados. Primeiramente, o selo de certificação Pró-Ética, desenvolvido pela Controladoria Geral da União (CGU), parece atender muito mais as demandas de grandes empresas do que PMEs. O processo parece contra intuitivo, na medida em que existem infinitamente mais PMEs do que grandes competidores. Portanto, a melhor maneira de engajar os pequenos participantes das Cadeias Globais de Valor ainda permanece em aberto.

Em segundo lugar, a ideia de vender aos pequenos stakeholders sua participação como fruto de um “engajamento ético” parece um movimento mais claro para os grandes stakeholders, enquanto as pequenas e médias empresas somente se apropriarão da ideia se houver um movimento conjunto, que contemple tanto a melhora de imagem, como ganho de competividade.

As Pequenas e Médias Empresas nas Cadeias Globais de Valor

Para além de combater possíveis ilegalidades, a extinção de desperdícios nos processos produtivos, ao representar um reposicionamento mercadológico favorável em relação aos competidores, é mais apelativa aos gestores das pequenas stakeholders que o certificado de empresa limpa. Além de significar um passo em direção a sustentabilidade da empresa, uma vez que as PMEs contam com poucos espaços para equívocos de gestão.

Da mesma forma, as pequenas e médias empresas tendem a implementar políticas de integridade, mesmo que sobre outras alcunhas, quando se percebem na fronteira entre o legal e o ilegal. São diversos os diplomas legais que podem atingir os elos da Cadeia Global de Valor de maneira solidária, como por exemplo a Lei nº 12.846, conhecida como Lei Anticorrupção, a Lei nº 9.613 sobre Lavagem de Dinheiro, etc.

É, destarte, quando se analisam os riscos que se percebe que a política de integridade pode se tornar um diferencial competitivo, que nem de longe é a ferramenta custosa que se imagina.

O avanço do estudo, bem como das plataformas existentes de certificação, precisa contemplar, além das demandas dos grandes stakeholders, as pequenas e médias empresas, que ao buscar uma certificação de integridade, aderem ao referido engajamento ético ao mesmo tempo em que buscam vantagens competitivas.

Um novo aculturamento empresarial só será possível se apresentar as PMEs as vantagens claras que a participação em processos de combate à corrupção pode trazer a empresa.

***

Se você gostou do tema abordado neste post e deseja saber mais a respeito, deixe um comentário ou assine nossa newsletter para se manter atualizado.

Abraços e até a próxima!

*** FELIPE CAVALHEIRO CIMA é advogado e internacionalista, especialista em regulação do comércio internacional e aspirante à carreira diplomática.

e-mail: felipecima@unochapeco.edu.br