Se pudéssemos listar as palavras mais repetidas pelos C-Level das grandes corporações, certamente, inovação estaria nesta lista. Cada vez mais a corrida por novos negócios tem sido acelerada, gerando uma revisão e adaptação das empresas às novas realidades e, a partir disso, a transformação dos setores de “Pesquisa e Desenvolvimento”.

Durante muitos anos, o contorno do setor de P&D para as grandes corporações foi desenvolvido internamente como um ativo estratégico valioso para obter vantagens completas em suas respectivas indústrias, atuando como barreira de entrada aos concorrentes.

Nesse contexto, o modelo adotado foi de inovação fechada, de modo que a empresa promoveria as próprias soluções internamente, através de programas de inovação, utilizando pessoas, recursos e metodologias para toda a linha de produção e atuação.

Essa forma de inovar sofreu fortes críticas ao observar de forma míope como a inovação é gerada.

Os 5 Maiores Obstáculos da Inovação nas Empresas

O site Innovation Leader, ao questionar 270 líderes de corporações sobre os entraves à inovação nas grandes empresas, identificou os cinco mais recorrentes obstáculos:

  1.   Política, guerras territoriais e falta de alinhamento, ou seja, a percepção que as organizações já estão inovando internamente e não necessitam de novos projetos, o que consumiria recursos e tempo da organização;
  2.   Barreira Cultural. A inexistência de uma cultura da inovação. Organizações que não prezam pela provocação e instigar os seus colaboradores a sair da zona de conforto tendem a aniquilar a inovação e o desenvolvimento de novos negócios;
  3.    Incapacidade de captar cenários de mudança;
  4.   Falta de orçamento;
  5.    Falta de estratégia ou visão de longo prazo.

Independentemente do obstáculo existente, mas, principalmente, em razão de perdas meteóricas de espaço como da Sears para a Amazon, ou então da revolução proporcionada por Apple e Spotify na indústria fonográfica, gestores perceberam a necessidade de reformular a consciência sobre a inovação.

interacao-entre-startup-grande-corporacao-e1540469024341 Corporate Venture Capital e Corporate Venture Builder: Modelos De Inovação Entre Startup e Grandes Corporações

A Interação e Trocas entre Startups e Grandes Corporações

Essa mutação acabou acarretando na aproximação e busca pela incorporação das principais características das startups e empresas exponencias como a agilidade, processo contínuo de melhoria, testar e aprender rápido, além de formatação de organizações enxutas.

Em razão da dificuldade de remodelar o negócio e a cultura das empresas, buscou-se transformar o setor de P&D com base em iniciativas de inovação fechada para inovação aberta (“open innovation“) aproximando-se e formulando os relacionamentos entre grandes empresas e startups.

A interação entre Grandes empresas e startups têm beneficiado ambas as pontas, vejamos a seguir alguns benefícios para cada uma das partes:

 Benefícios para as Grandes Empresas:

  1.  Rejuvenescimento da cultura corporativa: Ao trazer a bagagem de metodologias ágeis, abordagens enxutas e uma mentalidade empreendedora, a startup recicla a cultura e estimula a identificação novas oportunidades;
  2.  Cria valor a Marca: ao aproximar-se de startups a percepção de clientes, fornecedores e colaboradores é remodelada, transmitindo uma feição de modernidade e inovação, além de gerar maior empatia com os seus stakeholders
  3.  Foco na Solução de Problemas: O desenvolvimento de novos produtos e soluções inovadoras com startups pode ser uma maneira mais rápida e econômica de resolver os principais problemas de negócios, porque eles trazem novas tecnologias, modelos de negócios e novos talentos para trabalhar em conjunto;
  4.  Expansão para novos mercados: as startups tendem a ter as capacidades e a agilidade necessárias para competir em setores emergentes, de modo que, para a corporação, pode ser um canal importante para expandir as operações comerciais.

Benefícios para as Startups:

  1.    Acesso a Recursos: O Grande entrave das startups é a captação e manutenção de talentos, enquanto isso, grandes corporações possuem profissionais qualificados e talentosos, o que poderá agregar ao time da startup. Além disso, a possibilidade de acesso a informação com gestores e executivos, agrega conhecimento e facilita a tomada de decisão;
  2. Acesso a mercados: O acesso à alguns mercados podem ser facilitados pela existência de um parceiro comercial como as corporações, auxiliando na venda mediante contatos e abertura, assim como no estabelecimento de novas parcerias
  3. Aumento da Credibilidade: A credibilidade de qualquer organização é construída com o tempo e esforço. Possuir um parceiro que já tenha essa credibilidade e possa lhe transmitida poderá facilitar e otimizar o seu negócio;
  4. Acesso a Recurso Financeiros: Estar atrelado a uma empresa sênior, provavelmente, lhe auxiliará na obtenção de linhas de crédito e financiamento mais vantajosos.

Portanto, ambas as organizações poderão se beneficiar diante dessa aproximação.

Tipos de Relacionamento: Venture Builder e Corporate Venture Capital

Sobre o prisma da inovação aberta entre Corporate e startups, destacam-se duas modalidades de relacionamento, a primeira sobre um prisma de colaboração e desenvolvimento conjunto, sem a aquisição de participação social (Venture Builder) e uma segunda com objetivo de obtenção de parcela ou integralidade da empresa (Corporate Venture Capital).

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A estruturação do relacionamento entre essas partes estará associada a estratégia da corporação e a estágio do ciclo de vida da startup. Na fase de ideia, validação de produto, estágio semente com a estruturação do mvp ou protótipo, a opção que tem sido realizada é a figura do “venture builder”, enquanto no momento seguinte onde a startup está tracionando, portanto, em um momento mais avançado para comprovar o modelo de negócio e estruturar o marketing e a máquina de vendas da startups, as grandes empresas têm adotado modelos mais agressivos, seja associando-se a processo de aceleração, aquisição de participação social minoritária ou, até mesmo, a incorporação da startup através de Fusão e Aquisição.

Exemplo de Programas de Corporate Venture Builder:

  • Estruturação de Programa de intraempreendedorismo. As empresas estimulam que colaboradores, por meio de programas específicos e dissociados da estrutura matriz da organização, criem novos negócios, com suporte da corporação. Essa modalidade de programa além de estimular o desenvolvimento de novos negócios tem a capacidade de influenciar na satisfação do colaborador, auxiliando na retenção de talentos, otimização de recursos e manutenção de capital intelectual.
  • Programas de cocriação/coinovação. Nessa modalidade, há o desenvolvimento conjunto de soluções inovadoras, utilizando as competências de inovação da startup com as capacidades da corporação como por exemplo, acesso a mercado, informações proprietárias, entre outros benefícios. Nesse caso há a possibilidade de criação dentro da organização de hubs de inovação ou a participação de espaços colaborativos, onde startups e colaboradores das corporações interagem.
  • Incubadoras corporativas: A parceria e criação de incubadoras corporativas possibilitam que organizações maduras que já possuam seu modelo de negócio definido identifique ideias e tecnologias promissoras. Embora, a priori, alguns negócios não se encaixem ao atual modelo da corporação podem ser canais de comercialização, parceria ou outra forma de atuação estratégica. As incubadoras corporativas possibilitam aos empreendedores a concessão de espaço físico, experiência, mentorias, contatos, acesso a clientes e conhecimento de mercado. Por haver uma aproximação entre startup e empresa, facilita-se a realização de negócios e aumenta a possibilidade da empresa investir ou adquirir a startup. Nesse modelo, é comum as empresas definirem verticais de negócios atrelado aos desafios enfrentados pela corporação.
  • Aceleradoras corporativas: A aceleradora corporativa funciona como uma incubadora corporativa acrescida de fomento. Uma aceleradora corporativa pode tornar as colaborações com startups mais eficientes e econômicas, apoiando o projeto piloto, utilizando o seu produto, financiando o desenvolvimento de soluções e produtos inovadores, o que dá às empresas a oportunidade de explorar perspectivas de inovação por um custo menor, em prazo menor e com menos riscos em relação ao negócio principal. Além disso, a corporação poderá se tornar um parceiro de distribuição, investir em startups ou adquiri-las durante o programa. Uma maneira rápida e impactante de resolver problemas comerciais específicos e entrar em novos mercados, além de ser uma estratégia de saída atraente para as startups.
  • Programas plataforma: Quando uma startup participa de uma aceleradora corporativa ou de outros programas de startups externos, seu papel é como o de um fornecedor tentando aproveitar uma nova tecnologia para a corporação. O programa plataforma funciona de maneira oposta. O objetivo desta abordagem de inovação de dentro para fora (inside out) é fazer com que as startups criem seus produtos usando recursos de tecnologia fornecidos pela corporação para expandir o mercado da corporação. Neste caso, a inovação ocorre quando muitas startups produzem inovações complementares que fortalecem a plataforma comum. Algumas das mais conhecidas plataformas de grandes empresas, que compartilham recursos com startups, são a Apple Store e o Google Play Store para aplicativos móveis (Apps), habilitados pelos sistemas operacionais Apple iOS e Google Android, que dão a essas empresas uma participação na receita de todas as vendas.

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O que é Corporate Venture Capital

Corporate Venture é a expressão utilizada para caracterizar o investimento de empresas (geralmente de grande porte) em negócios nascentes. Assim, são fundos de investimento criados para investirem em startups, adquirindo participação societária minoritária ou o controle. Nossa opção, as empresas assumem o papel de investidores, procurando negócios emergentes dentro de suas estratégias corporativas, e colocando dinheiro nelas comprando parte de suas ações.

Além do capital aportado a corporação pode agregar a startup como seu conhecimento, mentorias, capacitações, canais de distribuição, contatos e espaço para trabalho, existem duas formas de Corporate Venture: o Interno e o Externo. Enquanto que, no primeiro as startups são formadas por colaboradores, no segundo os fundadores da startup são agentes externos à organização. No interno, o funcionário que tem uma ideia de um novo produto ou negócio é auxiliado pela empresa que concede equipe, estrutura, orçamento para o novo negócio. E então, faz-se uma ‘spin-off’, ou seja, cria uma nova empresa dentro do grupo. Nesses caso é comum que a maior parte do capital social seja da própria empregadora.

As Corporate Ventures favorecem a inovação, o aumento da produção com investimentos baixos, conhecimento, prática de modelos de empreendedorismo e economia criativa e renovação de processos ultrapassados. Em todos os casos, o propósito central é a criação de novos negócios, isolados da organização, a partir de ideias baseadas em oportunidades identificadas. Essa modalidade faz com que a empresa não precise reinventar a roda, ou seja, não tenha que alterar nada na sua estrutura, minimizando o risco de erro e otimizando recursos humanos e financeiros da corporação.

Diferentemente do Venture Capital, aonde o objetivo é basicamente o retorno financeiro dos investimentos, o CV possui também objetivos estratégicos, a fim de gerar inovações para o negócio da empresa investidora.

Exemplo de algumas empresa que adotam o Corporate Venture

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O que é Fusão e Aquisição (M&A)

O processo de Fusões e Aquisição (M&A) é uma forma mais radical ao de forma brusca e rápida incorporar a startup as grandes empresas integrando a tecnologias, reduzindo custos, aumentando escala e acessando novos mercados. A fusão e aquisição tem uma lógica diversa dos outros mecanismos, atuamos mais como um consolidador de mercado, aquisição de tecnologia essencial ou abertura de novos canais de forma rápida com pouca ou quase nenhuma colaboração e interação. Esta pode ser uma maneira rápida e impactante de comprar tecnologia ou capacidades complementares para resolver problemas comerciais específicos e entrar em novos mercados. A vantagem, para a startup, é que a saída com uma venda para estratégico evidencia claramente um empreendimento de sucesso, o que traz respeito e admiração para os empreendedores dentro do ecossistema. Além disso, para os empreendedores pode ser uma forma muita rentável de sair do empreendimento. Uma importante variação da estratégia de aquisição é a prática de aquisição para acessar talentos, as habilidades e a experiência de sua equipe, e não devido a seus produtos, tecnologia ou outros ativos.

Conclusão

Independentemente da estratégia adotada pela organização, associar-se às startups e empresas de tecnologia, pode acarretar significativas melhorias para a organização, desde o desenvolvimento de novas lideranças, novos modelos de negócios, retenção de talentos, ou consolidação da marca. Tudo isso por um custo relativamente baixo e um resultado expressivo caso seja adotada a estratégia correta.

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Abraços e até a próxima!

*** FILIPE SENHORINHA ROSË é advogado em Florianópolis/SC, especializado em Direito para Startups e parceiro do Studio Estratégia. Formado em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina, Filipe é sócio-fundador do escritório Rosë – Advocacia para Startup, membro da Comissão de Direito em Startups da OAB/SC, além de idealizador e coordenador do Lawtech Floripa Hackathon.

e-mail: filipe@advstartup.com.br